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09 SET 2026
CULTURA
APÓS MAIS DE 20 ANOS, TAPUIADA É RESGATADA E VOLTA A OCUPAR ESPAÇO NA CULTURA DE PARACATU
Foto Noticia Principal Grande
Foto: Click Filme
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Após mais de 20 anos sem apresentações públicas, a Tapuiada foi retomada em Paracatu na noite desta terça-feira (8/9), durante uma programação realizada na Casa de Cultura. A iniciativa marcou o retorno de uma das manifestações culturais tradicionais do município e reuniu representantes da cultura, familiares de antigos participantes e pessoas ligadas à preservação dessa tradição. 

Promovido pela Prefeitura de Paracatu, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Associação Amigos da Tapuiada, o encontro foi marcado pelo reencontro com a história e pela homenagem a pessoas que contribuíram para manter viva a manifestação ao longo dos anos.

A diretora-presidente da Casa de Cultura, Vera Lemos, destacou a importância do momento para a cultura do município.
“É muito importante para todos nós esse resgate da nossa Tapuiada. Isso representa muito para a nossa cultura e nós temos que agradecer todos aqueles que lutaram para que esse momento acontecesse. Depois de 20 anos, aconteceu. Temos que agradecer também ao prefeito, que concordou e decidiu pelo retorno da Tapuiada. Vamos todos abraçar essa oportunidade para que a Tapuiada volte com mais força e com mais brilho ainda, porque ela sempre deixou memórias inesquecíveis”, afirmou.
Representando a Associação Amigos da Tapuiada, Camila Gouveia destacou a emoção de ver a manifestação novamente em cena após 20 anos de luta. Ela fez um agradecimento especial à mãe, Marilda Gouveia da Damaceno, que teve papel fundamental no resgate da tradição, e lembrou o legado do avô, José Gouveia Damaceno, o Zé Pipoqueiro, que também participou da Tapuiada como espia.

“É com o coração cheio de gratidão que vivemos este momento. Foram 20 anos tentando fazer com que esse dia acontecesse. Se não fosse a força da minha mãe, talvez hoje a Tapuiada não estivesse aqui. Estamos resgatando um legado que veio do meu avô, Zé Pipoqueiro, que também foi espia na Tapuiada. Hoje, com minha mãe, temos a alegria e a emoção de dar continuidade a essa história”, afirmou.

A secretária interina de Cultura, Laura Beatriz, destacou que o resgate da Tapuiada representa também a preservação da identidade cultural de Paracatu e parabenizou a Associação Amigos da Tapuiada pela dedicação à tradição.

“Quando uma manifestação se perde, perdemos também uma parte da nossa identidade como povo e como sociedade. Por isso, quero desejar vida longa à Tapuiada e parabenizar a Associação Amigos da Tapuiada por manter essa história viva. Que cada vez mais pessoas tenham interesse em conhecer, preservar e transmitir esse legado, que é a história de tantas famílias e de tantas pessoas de Paracatu”, afirmou.

 
HOMENAGEM A QUEM AJUDOU A CONSTRUIR ESSA HISTÓRIA
A programação também foi marcada por uma homenagem especial a pessoas que contribuíram para a história da Tapuiada em Paracatu e que já faleceram. A iniciativa reconheceu homens e mulheres que dedicaram tempo, trabalho e carinho à manifestação cultural e deixaram sua contribuição para que a tradição permanecesse viva na memória do município. Foram homenageados: Maria Augusta da Silva Alves; José Heleno Alves Meireles, o Sr. Zé de Leno;Floriano Rodrigues da Silva, o Sr. Fulô; Jurandir Dário Gouveia Damasceno, o Dário Alegria; José Gouveia Damasceno, o Zé Pipoqueiro; José Barbosa, Geraldo Roquete Franco, Nenenzão. 

Os familiares dos homenageados receberam uma lembrança em nome de seus entes queridos. A homenagem reforçou que o resgate da Tapuiada também é uma forma de reconhecer aqueles que ajudaram a construir sua história.

A HISTÓRIA DA TAPUIADA
Em 24 de junho de 1744, o Manifesto Legal oficializa a descoberta das minas do Arraial de São Luís e Santana do Paracatu, que nasce sob o fascínio sedutor do ouro e da hospedagem de tropeiros com destino a Goiás. Com folclore riquíssimo, trazido pelos negros que vieram trabalhar nas minas, somado às danças e crendices dos índios tapuios, a história desta terra vai aos poucos acumulando uma cultura ímpar.

Este encontro dos negros congos com os índios tapuios gera uma das mais belas tradições culturais que Paracatu e Minas se orgulham em preservar: a Tapuiada.
Este confronto, que retrata uma luta corporal entre congos e tapuios, foi narrado em 1952, em um jornal local, da seguinte maneira:
“A Tapuiada, uma evocação do século passado, em que nos foi dado observar um quadro das lutas em que se empenhavam os congos e os índios tapuios que habitavam então Paracatu naquela época.”

Terminada a luta, em que se sagraram vencedores os congos, as duas tribos se reconciliam com a dança da Tapuiada. Esta festa se realiza no dia 8 de setembro, em homenagem a Nossa Senhora do Amparo, devoção esta que tem origem em Lamego, Portugal. Invocação que parece ter surgido do fato de ter Jesus, no alto da cruz, dedicado os homens como filhos de sua Mãe Santíssima, pois, de qualquer modo, por muito tempo, se chamava do Amparo a Senhora da Soledade, que se representava ao pé da cruz onde seu filho era invocado como o Bom Jesus do Amparo.

Conforme o historiador Oliveira Melo, a Tapuiada é uma dança simples e persuasiva. De um lado, os congos, negros de uma aldeia próxima. Do outro, os tapuios, índios desconfiados da existência dos vizinhos, mas sem coragem para se aproximar. Cantam e dançam, apresentam-se, separam-se e então aparecem os espias. Meninos de 5 a 10 anos, acompanhados de perto pelos caciques, no trabalho de investigar o que se passava na aldeia dos Congos. É uma dança religiosa guerreira. Com o passar do tempo, algumas adaptações ocorreram no vestuário da Tapuiada. Atualmente, essa manifestação folclórica é assim representada.

O Congo veste-se de saiote, abaixo do joelho, ornamentado com fitas coloridas e blusa brilhante, mangas fofas também com fitas. Na cabeça, usam uma testeira de penas e muitos trancelins como ornamento. Trazem na cintura a representação de uma espada de madeira e, no braço esquerdo, uma meia-lua de espelho, a fim de afiar a espada para o combate.
Os tapuios, de igual número de participantes dos Congos, vestem-se de malha na cor de toa. Na cabeça, carregam um colar também de penas. Nos ombros, utilizam uma ombreira em forma de colar, também de penas, que vai até o umbigo.

Uma tanga, partindo da cintura até os joelhos, decorada com balangandãs, cabaças e guizos. Para compor a indumentária, utilizam braceletes e tornozeleiras de penas coloridas. Carregam flechas também enfeitadas de penas.
O cacique Tapuio veste-se com penas brancas para destacá-lo do grupo, simbolizando assim a velhice e seu poder de chefe. A cacica veste-se com a mesma indumentária do cacique.
Os espias, filhos menores do cacique, são responsáveis pela espionagem. Saem à procura dos inimigos e, ao descobri-los, dão uma flechada nos guias dos Congos, pulando imediatamente nas costas do cacique, que os segue à distância para dar-lhes proteção.

Os índios tapuios não gostavam dos negros e não os queriam em suas terras, causas que motivaram o combate entre os grupos. A dança iniciava-se pela madrugada, com os tapuios fazendo a rapina: galinhas, ovos, frutos. Pediam também rapadura, fumo, pinga, dentre outros. Ao se defrontarem, congos e tapuios iniciam as cantigas, ao som de tambores e sanfonas, únicos instrumentos musicais utilizados na dança. Os congos cantam a marcha e os tapuios respondem. Neste momento, estão se apresentando.

Terminada a dança, todos os tapuios e congos gritam numa voz forte, solene, inesquecível:
“Maria, mãe de Tupã, arerê, arerê, arerê, minha gente. Salta e pula de contente, salta e pula de contente.”

Está firmada a paz entre os congos e tapuios.

A exemplo de Minas Gerais, Paracatu guarda, respeita e mantém as tradições culturais, intelectuais e artísticas de seus antepassados para transferi-los aos seus descendentes.
Afinal, não se respeita o que não se conhece.
 
Fonte: Prefeitura de Paracatu
Autor: Carol Capanema
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